As agruras dos fabricantes de trens

postado por Aleile @ 6:19 PM |
8 de abril de 2010

Horácio Brasil*

Em meados da década de 90, faltou mercado para os grandes fabricantes de veículos sobre trilhos do mundo. É que os países mais desenvolvidos já tinham seus sistemas completos, enquanto o Oriente contava com grandes fabricantes japoneses, coreanos e os chineses que, na época, já davam os primeiros passos no sentido de copiar as tecnologias europeias dos trens, metrôs e assemelhados. Teve início, então, um processo de fusão de fabricantes a ponto de, hoje, termos apenas dois grandes fabricantes na Europa (Alemanha/Inglaterra/França) e um na América do Norte (EUA /Canadá). Para esses fabricantes ocidentais sobraram o mercado latino-americano, os Estados Unidos (em linhas para passageiros), o Leste Europeu, o Oriente Médio e a África.

Difícil é vender trens a quem não tem cultura de transporte coletivo (EUA ) ou não tem dinheiro para implantar e operar. Entretanto,num esforço extraordinário, esses grupos se aliaram a grandes construtores – e até a organizações financeiras mundiais – “empurrando” projetos de trens urbanos que, na sua maioria, não foram bem sucedidos, como pode se constatar na América Latina, nos exemplos de Lima, Salvador e Fortaleza, todos melancolicamente inconclusos. Explicação: no afã de venderem obras e equipamentos, foram esquecidas a funcionalidade do produto final e a capacidade de pagamento do cliente, dentre outros cochilos.

Nos dias atuais, coreanos, japoneses e chineses voltam-se para o Ocidente com uma agressividade comercial inimaginável na década passada (basta dizer que o metrô de Salvador é um equipamento coreano vendido por uma “trade” japonesa), o que tem levado ao desespero os fabricantes tradicionais do Ocidente. A situação chega a tal ponto que o segmento joga pesado e alardeia ao mundo o veículo leve sobre trilhos – que é uma tecnologia de menor capacidade de transporte – como a panaceia das soluções urbanas para grandes cidades, a exemplo de Salvador e São Paulo, dentre outras.

Mais uma vez os governantes têm a oportunidade de não cair em mais um engodo que sobra sempre para o contribuinte. Consultando especialistas que, de fato, conheçam transporte coletivo urbano, poderão fazer como os dirigentes de mais de 160 cidades no mundo que ouviram o brasileiro Jaime Lerner e o colombiano Enrique Peñallosa, responsáveis pela efetiva implantação de sistemas de alta capacidade sobre pneus, rápidos, seguros e econômicos, ao invés de se precipitarem pelos trilhos fáceis e ilusórios. Aliás, no tocante a trilhos, Salvador é traumatizada há décadas…

*Horácio Brasil é mestre em engenharia de transporte pelo IME-RJ e superintendente do SETPS (Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador)

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8 Responses para “As agruras dos fabricantes de trens”

  1. José  comentou:

    Prof. Horácio…, brilahante como sempre. Na semana passada estive numa Audiência pública na Assembleia Legislativa da Bahia, da Comissão da Promoção da Igualdade, sobre a “Extensão do Trem do Subúrbio até o metrô e Criação do Terminal Rodoviário Metropolina Simões Filho/BR 324, e uma das questões levantadas por dois técnicos da plateia (Clovis e Rafael)foi a de que o BRT não conseguiria atender à demanda de passageiros e defenderam o VLT. Outras pessoas da mesa explicaram que a questão da viabilidade do BRT quanto ao menor tempo de execução, menor custo, mais flexibilidade e melhor possibilidade de integração eram pontos cruciais para se decidir por ele, mas que o futuro, daqui a uns 8 anos tem que ser metrô (e metropolitano).O que acha prof.?

  2. José  Says:

    IMportante ressaltar que precisamos revitalizar a malha ferroviária brasileira e a Bahia precisa agir. Tem um pessoal do Movimento Ver de Trem e organizações de profissionais ligados ao setor ferroviário, morafores de Mapele, et. que tem se articulado com o poder executivo (SEDUR) e legislativo, e lutado bravamente em prol desta recuperção. Ressaltemos ainda que há uma dívida histórica com o setor ferroviário baiano e brasileiro,pois a indústria automobilística e interesses políticos escrotos, além da ignorância, cusaram a detruição e depredação da malha ferroviária para transporte de passageiros e cargas. Precisamos resgatar o trem e integrá-lo ao sistema de transportes urbanos e tê-lo com eixo estruturante de desenvolvimento do Recôncavo Baiano e Litoral Norte baiano.

  3. Cleber Santos  comentou:

    Simplesmente vergonhoso que um artigo como esse claramente tendencioso e apoiado de forma explícita pelos empresários de ônibus de Salvador encontre espaço para ser divulgado com o apoio do Jornal A Tarde. Chega a beirar a repugnância esta crítica sobre os veículos sobre trilhos, que são amplamente utilizados nas maiores e sérias cidades do mundo por possuírem maior capacidade de transporte de passageiros, serem mais rápidos, mais confortáveis e menos poluentes. Será que um exemplo mal sucedido de construção do metrô de Salvador é motivo para desistir de investimentos nesta área e expor ainda mais a população ao caótico e ineficiente sistema por ônibus? Agora inventaram até uma palavra bonita, na verdade um estrangeirismo chamado BRT, para sepultar de vez a oportunidade de implementarem um sistema de transporte de massa sobre trilhos que possa interligar a Estação do Metrô Acesso Norte ao Aeroporto Internacional de Salvador e posteriormente aos municípios da RMS como Lauro de Freitas e Camaçari. Em respeito a história do Jornal A tarde, o mais sensato seria extinguir para sempre esse panfleto em forma de página Web financiada por aqueles que são contra o progresso da cidade e o bem estar da população e visam apenas a ampliação do seu monopólio no setor de transporte.

  4. Lucas  Says:

    Horácio Brasil.
    Creio que todos seus anos de estudos te deram uma grande capacidade de conseguir descobrir que onde te pagam melhor para fazer propaganda é o melhor para todos. Espero que conseguia um dia usar seu diploma de mestre não para defender uma classe em prol apenas dessa minoria, mas sim perceber que o melhor para a grande população e melhor para o Brasil, que esta em seu sobrenome.
    Pense!

  5. Cleber Santos  comentou:

    O interessante é que o Jornal A Tarde foi um dos maiores críticos dos projetos de cunho eleitoreiro denominado “Salvador Capital Mundial” da Prefeitura de Salvador a partir de projetos “doados” pela iniciativa privada, inclusive aquele que resultou no pedido de devolução do projeto da orla marítima de Itapagipe.

    Entretanto, a mesma vocação pela ética e pela lisura da coisa pública não tem se aplicado a esta iniciativa do SETPS, muito pelo contrário, recebeu inclusive apoio deste conceituado jornal.

    Essa aparente contradição remete a um conflito de interesses, pois o debate proposto não foi consultivo e sim para apresentar a população um projeto pronto e que como não poderia ser diferente tornará Salvador ainda mais refém dos ônibus em detrimento de um transporte de massa realmente eficiente como o metrô ou VLT.

  6. Jaime  Says:

    É incrivel como Salvador uma METROPOLE de quase três milhões de habitantes, só foi acordar agora para a reformulção do seu transporte público, onde existem inumeras linhas se sobrepondo no sentido centro, trafegando junto com os automóveis, engarrafando totalmente o trânsito na Cidade. O projeto é perfeito, já veio tarde. É uma verdade se dizer que o transporte sobre rodas é sim a solução do trânsito, menor custo com relação ao sobre trilhos, desde que bem elaborado e planejado, como no projeto, corredores exclusivos, sinalização semafórica sincronizada, de forma que se torne mais rápido se viajar de ônibus do que em automoveis, logo, logo as pessoas irão perceber que será mais viágem viajar de ônibus do que de carro e passaram a deixar seus automoveis em casa ou estacionados, pròximos aos terminais, pois todos nós sabemos que pesquisas dizem que em média um automovel transporta 1,5 pessoa, onde o ônibus convencional PADRON chega a transortar mais de 90 pessoas, seriam necessarios 60 automoveis para isso, imaginem o engarrafamento. Imaginem quem será beneficiado pelo METRÔ, nesse primeiro trecho implantado, quase ninguem pois irá operar na região melhor servida por ônibus de Salvador.

  7. José Raimundo  comentou:

    Concordo plenamente com o internauta Cleber Santos. O que está em jogo são os interesses dos empresários de ônibus de Salvador. E este senhor, representante maior deste segmento e da famigerada SETEPS, que põe nas ruas da cidade os piores ônibus, envolvida em negociações com construtoras para monopolizar mais ainda o sistema de transportes, não poderia se posicionar contra a implantação deste tal de BRT. É uma alternativa ineficiente e altamente poluidora em relação ao VLT, que tem condições de ser implantado totalmente em superfície, transportar muito mais pessoas e ser estendido para toda a RMS.Esperamos que os nossos governantes não se vendam e votem nas alternativas mais viáveis, pois o que está em jogo são os interesses de uma população que sofre na espera, no trajeto e no final de uma viagem por ônibus urbanos. Se esse BRT for realmente o escolhido correremos o risco de ter nas ruas, ou melhor, nos corredores exclusivos, veículos desconfortáveis (terríveis poltronas de plástico), sujos, sucateados, motoristas mal educados e metidos a pilotos de fórmula 1. Por isso, internautas façam a sua parte: exigam dos seus representantes políticos uma alternativa de transporte público de qualidade, que atenda aos anseios dos moradores da cidade de Salvador e que dê um basta a estes parasitas, que só querem saber de reembolsos.

  8. José  Says:

    Eu queria que as pessoas que defendem a alternativa do VLT pesassem na balança os prós e os contras e pudessem entender que no Brasil não existe nenhum VLT funcionando, e ainda que: o BRT é muito mais barato, pode transportar um número de passageiros significativo (e em algumas cidades do mundo se qeuipara até com o metrô), demora muito menos pra ser construído e operado (já existem empresas de ônibus operando , e de VLT???), a capacidade de endividamento do Governo Estadual e Municipal talvez não permitam investimentos tão caros e demorados neste momento (como um VLT, por exemplo, e olhe que ainda tem um metrô pra contruir), o BRT pode funcionar com Biodiesel (que polui menos e é barato). Só isso já dá pra ter uma idéia…

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