Mobilidade, uma questão de gestão

postado por Aleile @ 6:56 PM |
17 de junho de 2011

Salvador é uma cidade precocemente  “travada”, como se diz nos noticiários. Não se consegue circular a pé, de carro ou de transporte coletivo, sem o incômodo das demoras e  lentidões  nas intermináveis horas de pico de  demanda. Estamos de fato imóveis.O que se previa acontecer lá para o final desta década, infelizmente nos pegou a todos de surpresa.

Não fosse a oportunidade de investimentos na infraestrutura trazida pela Copa 2014, continuaríamos atônitos diante do caos urbano que se avoluma e toma formas de bicho de sete cabeças. São inúmeras as tentativas de explicações e soluções: tem carros  demais e ruas de menos. Falta concluir o metrô “curtinho”. Bota mais metrô na Paralela. A solução mais rápida é o BRT . A culpa é dos políticos, dos empreiteiros, dos donos de ônibus, das incorporadoras imobiliárias e por aí vai.

O fato é que, enquanto muitos palpitam, poucos discutem e raríssimos agem de fato e quando o fazem não é necessariamente da forma mais apropriada, planejada, debatida e, sobretudo, com a visão multidisciplinar que o problema exige. Tenho particularmente acompanhado várias discussões, debates e seminário sobre o tema nesta cidade nos últimos cinco anos. Várias na Câmara Municipal, na Universidade Federal da Bahia (Ufba), no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-BA ), no auditório do jornal A Tarde, na Assembleia Legislativa da Bahia, na Associação Comercial da Bahia e na mídia. Infelizmente, verifica-se que, em boa parte desses encontros, promovidos pelos setores público e privado, tudo não passa de embates entre as torcidas organizadas que torcem pelo VLT ou pelo BRT . É o FLA-FLU (ou BA-VI , trazendo a discussão para o plano local) da mobilidade, despertando paixões exatamente como acontece com o futebol e com os demais esportes de massa.

No imaginário de algumas cabeças influentes, alguns quilômetros do Veículo Leve sobre Trilhos pela Avenida Luiz Viana Filho, a Paralela, vai solucionar a imobilidade da cidade, resolvendo, por exemplo, os problemas de deslocamento do cidadão que mora no subúrbio ferroviário e trabalha na Barra. Ou daquele outro que mora na Barra e trabalha no subúrbio ferroviário. Há quem acredite que apenas alguns viadutos, passarelas para pedestres, ciclovias e ônibus em faixa exclusiva vão resolver no dia seguinte as agruras dos moradores das Cajazeiras, Pirajá ou Brotas. Outros ainda asseguram que o VLT , onde quer que seja implantado, destrava a cidade, a região metropolitana e, quem sabe, todo o Estado.

A novidade mesmo tem sido o novo apelido adotado por alguns para o metrô de superfície ou metrô leve, agora batizado de VLT , provavelmente apenas para camuflar a estigmatizada palavra metrô, que remete ao “metrô calça curta”, hoje motivo de piada nacional. Fabricantes, construtores  e operadores dessas modalidades ferroviárias ou rodoviárias estão esperando a “partida” terminar para venderem seus produtos. A animação é total.

E a mobilidade?

A questão mobilidade, propriamente dita, vem sendo tangenciada quando não negligenciada nos inúmeros debates ocorridos sobre o tema. Poucos têm sido os expositores e debatedores que abordam o assunto com propriedade, sinalizando que a questão mobilidade passa antes de tudo pelo planejamento urbano e microrregional, ou seja, a questão é complexa demais para ser equacionada por simples “transporteiros”.

E mais ainda, se o PIB brasileiro é gerado nas áreas urbanas, por 80% da população que as ocupa, estamos também diante de uma questão econômica na qual os custos urbanos se refletem nos preços e qualidade dos nossos produtos, sem contar as externalidades de cidades “imóveis” tais como o estresse da população, a poluição ambiental e a violência urbana que implicam numa saúde publica de péssima qualidade, num trabalhador de baixo rendimento e num PIB abaixo do potencial nacional.

Diante de tal quadro, ocorre um remédio de emergência: gestão pública. Sem esta, nem a gestão da empresa privada, igualmente imprescindível, prospera. Para um outrora propalado “choque de gestão” se faz necessária a adoção de políticas claras, de Estado e não de governo, planos diretores setoriais, legislação atualizada, comunicação social competente, pessoal técnico e administrativo preparado e reciclado, instrumentais modernos e metas orçamentárias realistas e transparentes parcerias com o setor privado naquilo que mais apropriado for.

Sem gestão, não se tem a infraestrutura requerida nem a prestação dos serviços oferecidos à população. Além do mais, a boa gestão pública de um setor ou função urbana contagia positivamente os demais setores e serviços prestados.

Não se tem notícia, por exemplo, de uma área urbana com um excelente serviço de transporte, porém com a limpeza urbana, a saúde, a educação ou a segurança pública deficientes. Logo, gestâo é este o primeiro fator de garantia da mobilidade urbana.

É, portanto, inadequado reduzir a discussão da mobilidade à escolha desse ou daquele modal de transporte público, até porque cada um deles tem suas características  que exigem uma análise técnica cuidadosa para embasar melhor  a decisão política. A complexidade dessa escolha exige conhecimentos técnicos de vários enfoques, a um nível que possibilite uma análise multicriterial para melhor avaliação dos riscos.

Terra de maravilhas, exemplo de gestão

Recentemente, estivemos no 59º Congresso da União Internacional de Transporte Público (UIT P), entidade com 115 anos de existência e de respeitabilidade, mundialmente  reconhecida a ponto de influenciar governos no que tange à mobilidade sustentável.

Neste ano, o evento aconteceu em Dubai, onde foi desenvolvido o tema que prevê a duplicação da demanda de transporte público até 2025, como uma forma de reduzir a poluição no planeta. Na semana que precedeu o congresso, a delegação brasileira realizou uma visita técnica a Istambul, metrópole com mais de 16 milhões de habitantes, 80% dos quais vivem na parte europeia da cidade.

A partir do ano 2000, vem ocorrendo em Istambul uma transformação visível, mesmo para quem não a conheceu no século passado. A metrópole que só contava com cerca de 40 quilômetros de trem metropolitano, hoje conta com 16 quilômetros de metrô em operação e mais 15 quilômetros em fase final de construção, mais 15 quilômetros de VLT na área central, um funicular (plano inclinado) de 600 metros e um BRT , inicialmente com 40 quilômetros, implantado em oito meses.

Com 30 mil passageiros/hora/sentido, o BRT de Istambul é considerado o terceiro mais eficiente do mundo – o primeiro é o de Bogotá (Colômbia) e o segundo o de Jakarta (Indonésia). Todos esses sistemas estão integrados operacionalmente e o BRT se justifica pela pressa que a metrópole tem de resolver seus problemas mais urgentes de mobilidade. A cidade hoje é segura, limpa e agradável e conta com um Plano Diretor Urbano com metas ousadas até 2025, quando o país completa 100 anos de estruturado.

Dubai não dá para comparar com nada neste mundo. É de uma riqueza exuberante e onde tudo é feito com muito exagero. O sistema viário é repleto de Rolls Royce, Lamborghini, Ferrari e Porsche a ponto de, devido aos congestionamentos nas horas de pico, dispor de um metrô que parece saído de um conto das mil e uma noites e um sistema de ônibus com ar condicionado nos postos de parada. Dubai tem um plano diretor.

Não por acaso, tem gestão pública. A nota negativa de todo o congresso, no lado brasileiro, foi a ausência de representantes do poder público, com exceção do secretário de Transporte do estado do Rio de Janeiro e do secretário de Transporte Me-tropolitano de São Paulo. Enquanto o Brasil ignorava o evento, vários ministros e secretários de países europeus, asiáticos e até dos Estados Unidos estavam lá. Até parece uma atitude de arrogância, mas, a julgar por outras gafes do nosso povo, com certeza, não foi essa a “ância” que justificou a notada ausência.

Até que enfim

No seminário “Mobilidade em Destaque: Fluxos, deslocamentos e alternativas para os sistemas de transportes públicos na Região Metropolitana de Salvador”, organizado pela coordenadora da Subcomissão Especial de Desenvolvimento Urbano da Assembleia Legislativa da Bahia, deputada Maria del Carmen, no dia 5 de maio deste ano, surgiu uma voz tonitruante de um professor de geografia da Ufba, que fez lembrar a lucidez do seu colega, já falecido, o Dr. Milton Santos.

O professor Clímaco Dias explicou os motivos da falta de mobilidade na capital baiana e na RMS e, demonstrou que, sem conhecer a causa da enfermidade e com base apenas na propaganda dos remédios, é dificílimo curar a tal doença chamada imobilidade.

Em outras sábias palavras, o professor de geografia falou da horizontalidade da cidade, dos assentamentos urbanos sem planejamento, da clandestinidade da urbe, do crescimento desordenado e desassistido ao longo dos tempos, que fizeram do bairro das Cajazeiras um aglomerado urbano maior que Feira de Santana e sem nem um décimo da estrutura da segunda maior cidade do Estado.

Apenas recentemente o bairro conta com uma agência do Banco do Brasil, Correios, escolas de 2º e 3º graus, centro de abastecimento, postos e hospitais insuficientes, assim como são insuficientes os aparatos de segurança, ordenamento do solo e outros serviços de atendimento ao cidadão.

Isso gera, por consequência, uma grande necessidade de transporte público e de sistema viário para que as pessoas possam  se deslocar a outra parte da cidade onde esses serviços existem de forma concentrada.

O professor Clímaco lembrou, inclusive, que Salvador se estende por toda a região metropolitana, vez que, há muito tempo, trabalhadores da Petrobras, Centro Industrial e Porto de Aratu, Polo Petroquímico e complexo turístico do Litoral Norte residem na capital e diariamente (e penosamente!) se locomovem por ônibus e automóveis por motivos de emprego, fornecimento de serviços e negócios outros.

São movimentos associados à extrema desarticulação entre as funções moradia,  trabalho, negócio, escola e lazer para uma importante parcela da população que gera trânsito de veículos sobre o precário sistema viário regional. Até que enfim, uma voz que traduz uma visão que enxerga mais longe.

1 Comentário para “Mobilidade, uma questão de gestão”

  1. vaguiner  comentou:

    Ê SETPS, o objetivo era lucrar com o BRT hein? e continuar deixando Salvador para trás em relação ao que há de novo e eficaz em mobilidade urbana. Que coisa feia! Manipulando a população com informações que jogam o BRT ao seu favor. Enquantos cidades como Rio e Bh, o qual vocês citam como exemplos, já tem o metrô há muito mais tempo, e, agora colocoma o BRT como uma alternativa a mais, vocês querem implatar o BRT como principal meio aqui. Isso é um absurdo! É deixar Salvador atrasada no tempo e nas suas mãos. Se vocês são tão bonzinhos quanto dizem, porque já não ajudaram antes a Salvador a ter um transporte mais eficaz? Não precisa muita coisa não, é só boa vontade, algumas estações de integração, passagem única ao utilizar mais de 1 coletivo. Por favor, menos hipocrisia e mais ação!!!!

Deixe seu comentário



Grupo A TARDE

empresas do grupo

jornal a tarde | a tarde online | a tarde fm | agência a tarde | serviços gráficos | mobi a tarde | avance telecom

iniciativas do grupo a tarde educação | a tarde social


Rua Prof. Milton Cayres de Brito n° 204 - Caminho das Árvores - Salvador/BA, CEP-41820570. Tel.: 71 3340-8500 - Redação: 71 3340-8800


Copyright © 1997 - 2010 Grupo A TARDE Todos os direitos reservados.